Prato Indigesto

Marise Ribeiro

 

 

       Meio-dia. Entro no restaurante onde estou acostumada a almoçar e Luís, o garçom que algumas vezes me atende, acena para uma mesa vazia próxima ao bufê.


       Prato já servido com legumes, verduras, um filezinho de frango grelhado e duas fatias de manga, dirijo-me, então, à mesa.  De repente, as conversas começam a invadir minha refeição.  As mesas são bem próximas umas das outras e não há como não participar da conversa alheia, ainda mais se elas não são confidenciais ou, pelo menos, em tom mais moderado, como manda a boa educação.

 

       Duas mulheres, em mesa próxima à minha, falam em voz alta:


       - Como vai o Alexandre?

      
       - Está se separando.


       - Mas conta, como isso aconteceu?


     - A esposa não aguentou o desleixo dele.  Viviam brigando.  Ela, caprichosa, ele largando roupa pela casa, louça suja na pia...  Não a ajudava em nada.  É meu filho, mas eu não passo a mão pela cabeça.  Alexandre não levanta nem a tampa do vaso sanitário para urinar e ainda diz que vai voltar a morar comigo!  Eu não quero!...

 

        Mastigo com dificuldade o meu saudável e colorido cardápio e penso, me segurando para não falar: “Ah, vai sim! Deixe-o morar consigo, ainda há tempo de corrigir seu erro e dar a educação que não lhe deu.  Pensando bem, quem sai aos seus não degenera, pois educação também não parece o seu forte”. 

 

        Neste instante o celular de um homem, sentado à minha esquerda, toca:


       - Oi, tia, estou almoçando.


       - O que o médico disse?


       - Não, tia, o dermatologista.


       - Hum, sei...  Então a senhora compra a pomada, senão esse prurido não vai secar.

 

        Meu franguinho quase bate asas do prato e os legumes empalidecem.  Tento me abstrair do ambiente, penso nas coisas que ainda terei de fazer e o burburinho do restaurante faz a trilha sonora de fundo.

 

        Na mesa à direita, dois homens conversam sobre trabalho e um deles diz que ficou das 23 às 6 h da manhã estudando um processo.  Bem, pelo menos é uma conversa que não me embrulha o estômago.  Até que o outro diz:


       - O Carlos me ligou ontem pra me gozar, só porque o Fluminense havia perdido a liderança do Campeonato.


       “Pronto, pensei, estava bom demais!... Tinha este cara que me lembrar daquela armação para o Corinthians, um pênalti fajuto, que havia tirado a liderança do meu tricolor!”

 

       Resolvo dar atenção ao noticiário da TV, jornal local no ar....  “PM assassinado com um tiro na cabeça em perseguição a bandidos...”; “Rapaz morto e outro baleado por policiais, durante a Parada Gay...”; “PM morto por outros policiais, depois de ser flagrado em carro roubado...”. Isto não é um almoço, é uma barbárie regada a azeite e vinagre!...

 

       Naquela hora, até as verduras já pesavam no estômago.  Os diálogos invasivos e não escolhidos por mim se proliferavam ao meu redor.  Não adiantava um prato saudável ao físico, se os assuntos não faziam bem ao espírito.

 

       Os senhores à minha direita já se foram e eu me preparo para saborear as fatias de manga.  Um casal ocupa a mesa recém vaga e o rapaz segura, delicadamente, a mão da moça.  “Ah, pelo menos minha sobremesa será regada com a doçura de um gesto, penso”. E, então, ele começa: 


       - Você não presta mais atenção em mim. Anda me evitando, o que está acontecendo?  Não me ama mais?...


       - Você se esqueceu da patada que me deu outro dia?  Seu estúpido! E não adianta vir agora com carinhos!... Temos muito o quê colocar em pratos limpos.


       “Pronto, azedou!... DR alheia, de sobremesa, engorda a minha paciência.

  

       Luís se aproxima e me pergunta:


       - Posso trazer seu chá de camomila?

 
       Não, Luís, hoje até um inocente chazinho será indigesto!...

 

 

17/11/10

 

 

 

 

 

 

criação:denise moura

imagem:Ernest ange Duez

 

 

 

 

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