Mágoa de Pardal

José Antonio Jacob



Todo dia eu escuto no terreiro,
No meio da algazarra matinal
Dos passarinhos no meu pessegueiro,
O solitário pio de um pardal.

Eu não consigo vê-lo por inteiro,
Mas vejo-o a remexer no capinzal,
E a pipilar no fundo do quintal...
"Como me dói ouvir-lhe meu parceiro!"

A nossa desventura é semelhante,
Sossegue essa tristeza se não queira
Que a mágoa no meu peito vá adiante.

Não me entristeça mais dessa maneira!...
Lembrando-me da dor que anda distante,
Porque também perdi a companheira...







Fim de Jornada
José Antonio Jacob



Enquanto minha pena versifica
Versos de amor em minha caderneta
Vejo passar o tempo na ampulheta,
- Mas na ampulheta o tempo sempre fica!

Tanta saudade sua não se explica...
Desenho um coração com a caneta
E dentro dele um nome clarifica...
Arranco a folha e a guardo na gaveta.

Finda a jornada vou ao bar ao lado,
Para esquecer o amor da minha vida
Tranquei lá no escritório o nome amado...

E, ainda, cansado dessa solidão,
Eu peço uma caneta e uma bebida
E escrevo o nome dela no balcão.







Despercebimento
José Antonio Jacob



Dentro dos seus sapatos desbotados
Ele saiu de casa e foi distante,
E foi além da conta, andou bastante,
Até achar caminhos nunca achados.

Esse homem, descontente e itinerante,
Não disse adeus quando se foi aos lados,
Deixou atrás de si rostos molhados
E colocou a Sorte vida adiante.

Depois, voltou, trazendo na memória
O que o Mundo não lhe pode servir,
E ao retornar à casa: ó Sorte inglória!

Nenhum sorriso amado viu sorrir...
Chamou, cantou, chorou, contou história,
Mas ninguém quis saber e nem ouvir.







Amor-Próprio Ferido
José Antonio Jacob



Anos e anos eu sinto as invejosas
Pontadas de ciúmes no meu peito
Ao recitar poesias primorosas
Com versos que eu queria tê-los feito.

Ah! Deus! Eu trago em mim as rancorosas
Mágoas e uma coroa de despeito
Das alheias estrofes luminosas
Que leio na penumbra do meu leito.

Mas tenho ainda uma frase que alimenta
A vingança da dor que me restou...
Caio em delírio e a minha febre aumenta.

E o espectro de loquaz, que acho que sou,
Murmura um verso que a demência inventa
Para um amor que nunca me escutou.







O Beijo de Jesus
José Antonio Jacob



Eu era criança, mas já percebia,
O pouco pão que havia em nossa mesa
E a aparência acanhada da pobreza
Que tinha a nossa casa tão vazia.

De noite, antes do sono, uma certeza:
A minha mãe rezava a Ave-Maria!
E ao terminar a prece eu sempre via
No seu olhar uma esperança acesa.

Após a reza desligava a luz,
Beijava o crucifixo, e a fé era tanta
Que adormecia perto de Jesus.

Depois que ela dormia (isso que encanta)
Nosso Senhor descia ali da cruz
Para beijar a sua face santa.







Velho Órfão
José Antonio Jacob



Desde cedo esperei o que não vinha
E a minha vida foi perdendo o prazo:
Fui vendo a minha sombra mais sozinha
E o meu destino cada vez mais raso.

Enquanto andei do quarto até a cozinha,
Pesou-me o passo e me causou atraso,
Desfolharam-se os dias na folhinha
E o tempo foi morrendo em meu ocaso.

Súbitos longos anos tão estreitos,
Sinto vê-los perdidos sem proveitos,
E sem proveitos não me presto mais...

Eu sou aquele velho desolado,
Que vive a andar atrás do seu passado,
Como a criança órfã que procura os pais.




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