O Amor em Tudo

Humberto Rodrigues Neto



Se o dizeres de alguém maldades dévias
não possas refrear por mais que o escondas,
então escreve-as... mas na areia escreve-as,
lá bem pertinho do quebrar das ondas!

Toda grandeza d’alma não incide,
propriamente, no bem que praticamos,
porquanto, na verdade, ela reside
no silêncio que dele mantenhamos!

Se o céu almejas, todo bem semeia,
e empina para as nuvens tuas escadas:
perigoso é guardar a mente cheia
de sonhos, tendo as mãos desocupadas!

Pregar que só o batismo e que só a crença
no calvário, de bênçãos a alma aljofrem,
é o mesmo que pregar a indiferença
pela mísera sorte dos que sofrem!







Queixa do Espinho
Humberto Rodrigues Neto



Quiseste, Pai, que eu fosse humilde espinho
e eu fui sem queixa ao que determinaste:
lançado ao chão de um tenebral caminho,
ou balouçando de uma flor na haste.

Por Ti fui relegado à solidão
da mata, e cumpro a sina que me deste:
de gume em riste, a rechaçar a mão
que tente arrebatar-me o fruto agreste.

Depois, ó Deus, determinaste atar-me
aos galhos de uma flor bela e cheirosa,
a afugentar quem ouse separar-me
da minha meiga companheira: a rosa.

E obedecendo aos Teus caprichos sábios,
até nas rimas fui por Ti disperso:
meu nome aflora, do poeta aos lábios,
pra realçar as vibrações de um verso.

No chão, no ar, em toda parte, enfim,
cumpri calado o que me conferiste;
onde me alçaste houve razões, e assim,
vivi contente o meu destino triste.

Porém, por mais que o raciocínio gaste,
jamais conseguirei, neste ínvio trilho,
saber por que razão Tu me cravaste
na nívea fronte do Teu pobre filho!







Intrusos
Humberto Rodrigues Neto



Quando Deus fez o nosso coração.
fê-lo de modo a conter quatro quartos,
sem o aparato de ambientes fartos,
nem requintes de hotel ou de mansão.

E nele acomodou quatro inquilinas:
a Crença, a Gentileza, a Humildade,
e a quarta - a mais bonita - a Caridade,
pra ali exercerem suas missões divinas.

Por natural e ancestre antagonismo,
são todas divorciadas, sem queixume,
de quatro vis mancebos: o Ciúme,
mais o Orgulho, o Melindre e o Egoísmo.

Pra que tais entes, vindos de ínvias plagas,
pousada ali não peçam em hora morta,
pintemos depressinha, sobre a porta,
em letras bem legíveis: "Não há vagas"!








Orgulho
Humberto Rodrigues Neto



De nada serve o orgulho com que vais
pisando nos que julgas inferiores:
por mais altos que sejam teus primores,
somos na essência exatamente iguais.

Nem mesmo a vasta soma dos valores
que ostentes em cultura ou em Reais,
te confere os poderes temporais
de ao pequenino tua soberba impores.

Se ao morrer ainda creres que há razão
de a morte os segregar, que os ponham, pois,
tu em rico esquife, e o pobre em vil caixão!

Porém, aos vermes, que virão depois,
nunca perguntes, pois jamais dirão,
qual dos banquetes foi melhor dos dois!








Beijos
Humberto Rodrigues Neto



Deixa que eu beije tuas orelhas, teus cabelos,
a fronte, os olhos, as tuas mãos e os antebraços;
quero o teu ventre e os teus quadris em beijos tê-los,
e em beijos ter as tuas pernas e os teus braços!

Do dorso às nalgas, do pescoço aos cotovelos,
do ombro aos seios, que não restem leves traços
do que eu não beije... a boca, os pés e os tornozelos
deixa-me encher de beijos puros ou devassos!

Que em teus joelhos e em tuas coxas meus desejos
jamais encontrem empecilho em que os encubes,
e expostos fiquem dos meus lábios aos adejos!

Mas, pelos Deuses! Por Osíris! Por Anúbis!
deixa-me pôr o mais ardente dos meus beijos
no teu vestíbulo do céu, ao sul do púbis!







De uma foto
Humberto Rodrigues Neto



Ao contemplar a tua foto,
algo profano ou devoto
em mim pressenti vibrar...
ao ver-te linda qual Vênus,
nos teus contornos morenos,
senti n’alma, quais venenos,
loucos ciúmes do mar!

Ah... fina e ondulante areia,
que as franjas do mar penteia
e as águas mansas repele...
diz-me ao ouvido insensato:
que sabor, que enlevo grato,
se sente, ao morno contato
com tão meiga e suave pele?

Sol, que cavalgas colinas
e escancaras as cortinas
dos abismos siderais...
Quando a fores surpreender,
faz com arte o teu dever,
pois nunca mais hás de ver
outros contornos iguais!

Mar, que beijaste os seus pés,
que te estufaste em marés
pra se ajoelhar diante dela...
Mar, que a tal corpo fez rondas
no espumar de níveas ondas,
mar que a envolveu, não me escondas
quanto é bom se abraçar nela!

 

 

 

 

 

 

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