A Quadratura do Círculo
Eugénio de Sá



De harmonia é feita a criação
Formas redondas, como o sol e a lua
Vestindo a apóstrofe a qualquer ficção
Escrava da utopia e expondo-a nua

Por mais que a queiramos transformar
Numa imaginária quadradura
A forma equilibrada é circular
Arredondada, almo da doçura

Dualidades há, fundamentais
Que longe de se opor à teoria
São d’Eros os primores originais
E dão sempre ao retorno a primazia

De Platão sabemos conhecer
Que a humana cabeça é principal
No corpo que domina a bel-prazer
E lhe arredonda o gesto crucial

Mas se à eternidade é substância
Fazer-lhe da constância a forma circular
Já do amor será extravagância
Um círculo fechado considerar

Porque o amor é dádiva sem preço
Não há nele medida eqüidistância
De um núcleo que sirva de tropeço
Quando este coração nos vibra d’ânsia

A emoção é forte e verdadeira
Mas loucos, mesmo assim, sem lucidez
Lá vamos procurando pôr inteira
A alma, que em pedaços, busca... a redondez




Amar É Obra de Deus
Eugénio de Sá



O segredo do amor não está na sedução
Que mansamente se faz insinuante
Está na magia de um outro coração
Cujo bater nos é arrebatante

Chame-nos à razão quem quer que seja
Digam o que disserem desse amor
Só encontramos força pr’o que almeja
Toda a nossa emoção nesse penhor

Será exorbitante se o quiserem
De cínicos chamar os seus censores
Mas que tais puritanos nunca esperem
Com isso dissuadir esses amores

Porque há muito do espírito de Deus
Nessa indução divina de dois seres
Que lhes transforma a vida em Jubileus
E cada dia num mundo de prazeres




Controvérsia
(Sextilhas)
Eugénio de Sá




Essa penumbra que tanto me encanta
Ciliar, que os olhos te agiganta
Como um gabão que te cobre o rubor
Feito da maciez da caxemira
Do tímido desejo que suspira
Mostra-me o teu recato, o teu pudor

Do azeviche que o teu cabelo espelha
Asa de corvo vivo, qual centelha
Brota cerúleo tom no ondular
Por quente e brando zéfiro agitado
E eu me quedo fremente, emocionado
Sem mais de ti saber que admirar

Pobre de mim, que nem sei mais que faço
Do trívio nó em que mais me embaraço
Porque a tua razão é controversa
Ao dizeres-me c’os olhos que me amas
Enquanto o gesto cala e não me chamas
E a razão que eu quisera se dispersa

E sem saber se me queres ou enjeitas
Vivo as angústias das piores suspeitas
No ermo que criaste, indiferente
Nest’alma que se arrasta empobrecida
Mas que vive na esperança d’outra vida
Que me faça sentir de novo gente




Fado Maior
Eugénio de Sá



É lá, nesse recanto da saudade
Que mora o fado antigo, marinheiro
Aquele fado de sempre sem idade
Que numa voz maruja foi primeiro

Do Gama as caravelas foram palco
Dessa canção tristonha, emocionada
Que brota das gargantas em socalco
Com em soluços d'alma esfarrapada

Falo de Portugal, emocionado
De lá trouxe o meu fado, alegremente
Numa esperança de vida, engalanado

E inda o escuto ao longe, sobre o mar
Como se os ecos seus fossem presentes
No luso coração nele a vibrar




Ensaio sobre a tristeza
(Sextilhas)
Eugénio de Sá




De estio vestiu-se o dia e eu gelado
Implacável, a dor manteve-me acordado
Até que com promessas de calor
O sol vem sacudir-me a letargia
Mas esta mão inerte nega a guia
Do meu frio coração morto de dor

E assim renego o verso salvador
Que a tristeza é demais e o desamor
Inda me zurze a alma desumano
Fustigando-me a esperança envergonhada
De nada serve quere-la alevantada
Na frustração lhe pesa o desengano

Horas passam imunes à razão
Que teima que a poesia é solução...
Na tarde já emerge o sol poente
E o olhar volta a cair na pena
Mas a dor inda não é pequena
P’ra que me dote o gesto tão dormente

Cai a noite e o seu manto estrelado
Cobre de brilho novo este meu fado
E a mão ligeira como que por encanto
Faz alçar-se da mesa a pena leve
Que desliza num verso inda que breve
Para contar a história deste pranto




Luar de verão
Eugénio de Sá



Noite límpida esta brilhando na janela
Do quarto onde me deito e tu te deitas
É nosso o leito onde tu me rejeitas
É minha a dor ou o que resta dela

Campeia a indiferença neste espaço
Onde te chamei minha e fui o teu senhor
Era a festa da vida vivida com amor
De tanto que nos demos não permanece traço

Nesta noite estival é frio o meu pesar
Ao lembrar a doçura experimentada
Conhecendo-te a ausência embora aqui deitada
E assumo a almofada cansado de lembrar

Brasil
Maio de 2007

 

 

 

 

 

 

 

 
 

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