A Noite
Carmo Vasconcelos



A noite
sempre a noite...

Traz-me de ti
os cheiros e as palavras
que tento olvidar...
E nas paredes nuas
põe teu gesto
que me afaga como luas
os seios e o sexo
num incesto
de almas gémeas
impedidas de se amar

A noite
sempre a noite...

Acende no silêncio mais profundo
os teus lumes e sons
de enfeitiçar…
Cegam-me de luz
os olhos teus
e ébria me deixa a tua voz
a prometer-me o mundo...
E fundo, muito fundo
pela mão da falsa noite
eu deixo-te entrar


(In E-book “Memorando de Fogo”)
Lisboa - Portugal






Pudesse Eu Ser…
Carmo Vasconcelos



Pudesse eu ser…

A concha onde abrigas
pérolas de palavras inúteis
O cofre onde ocultas
jóias de pensamentos calados
A ânfora onde derramas
cristais de lágrimas antigas

Pudesse eu ser…

Faísca e fogo
na lenha húmida dos teus olhos
Sol e Lua
na sombra difusa do teu corpo
Verde e água
na aridez do teu deserto

Pudesse eu dizer…

Pertenço-te!


(In E-Book “Rompendo Amarras”)
Lisboa – Portugal






Num Cigarro
Carmo Vasconcelos



Dia após dia queimo num cigarro
Essa imagem que tento dissipar
De um amor fugidio que não agarro
E que mora não sei em que lugar

E queimo ainda essa voz que teima
Em reclamar furtiva esse amor
Num crepitar constante que me queima
Braseiro manso mas devastador

Dia a dia queimar é o meu desejo
Essa imagem longínqua e desfocada
Dum amor que imagino mas não vejo

E em cada minha triste madrugada
Cada cigarro rubro é como um beijo
Dessa imagem por mim imaginada


(In E-Book “Sonetos Escolhidos”)
Lisboa - Portugal






Recolhimento
Carmo Vasconcelos



Hoje sou aquela… a que sepulta
Palmas, louvores, risos, ironias
Quero santos ofícios, elegias
Abrir a sacra catedral oculta

Quero sinos tocando a rebate
Eco de meus lamuriosos ais
Quero beber as mágoas dos mortais
Alimentar a dor que em mim se abate

Ser surda a qualquer hino de alegria
Ajoelhar em réquiem de finados
Dar campa aos meus amantes desamados

Carpir a vida breve e fugidia
Pôr luto pela morta felicidade
E recolher-me em ti… nesta saudade


(In “Sonetos”)
Lisboa-Portugal






 

Mil Vezes
Carmo Vasconcelos



Mil vezes nascerei ingénua e pura
despida de memórias e de linhos
e às cegas plos abrolhos dos caminhos
de novo me farei à estrada escura

Mil vezes feita verme a impureza
sugará de minh’alma a perfeição
até que certo dia um clarão
me faça vislumbrar sua torpeza

Mil vezes travarei a luta obscura
contra a vil impureza traiçoeira
que na carne me tenta e me tortura

Só quando vir do corpo a impostura
alcançarei a estrada derradeira
e pousarei sem retorno n’ Altura


(In “Sonetos”)
Lisboa-Portugal






Libertação
Carmo Vasconcelos



De novo a diáfana leveza
o peito arfante aberto à natureza
liberto das grilhetas do amor
o pensamento claro e fluido, fresco
transparente e receptivo
vogando ao sabor da correnteza

Da turvação dos olhos te arranquei
da mente nublada exterminei
tumor libidinoso e perverso
nascido de veneno de flor

Da radiografia imaginada
sobrou agora a foto, frente e verso,
que não valeu o flash de uma hora…
E a moldura, essa, gasta e deformada
de sonho e poesia mascarada
com dedos de indiferença joguei fora!


(In “Memorando de Fogo”)
Lisboa-Portugal




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