Retrato de uma cidade
Carlos Drummond de Andrade
(18/09/1976)




I
Tem nome de rio esta cidade
onde brincam os rios de esconder.
Cidade feita de montanha
em casamento indissolúvel
com o mar.
Aqui
amanhece como em qualquer parte do mundo
mas vibra o sentimento
de que as coisas se amaram durante a noite.
As coisas se amaram. E despertam
mais jovens, com apetite de viver
os jogos de luz na espuma,
o topázio do sol na folhagem,
a irisação da hora
na areia desdobrada até o limite do olhar.
Formas adolescentes ou maduras
recortam-se em escultura de água borrifada.
Um riso claro, que vem de antes da Grécia
(vem do instinto)
coroa a sarabanda a beira-mar.
Repara, repara neste corpo
que é flor no ato de florir
entre barraca e prancha de surf,
luxuosamente flor, gratuitamente flor
ofertada à vista de quem passa
no ato de ver e não colher.

II
Eis que um frenesi ganha este povo,
risca o asfalto da avenida, fere o ar.
O Rio toma forma de sambista.
É puro carnaval, loucura mansa,
a reboar no canto de mil bocas,
de dez mil, de trinta mil, de cem mil bocas,
no ritual de entrega a um deus amigo,
deus veloz que passa e deixa
rastro de música no espaço
para o resto do ano.
E não se esgota o impulso da cidade
na festa colorida. Outra festa se estende
por todo o corpo ardente dos subúrbios
até o mármore e o fumé
de sofisticados, burgueses edifícios:
uma paixão:
a bola
o drible
o chute
o gol
no estádio-templo que celebra
os nervosos ofícios anuais
do Campeonato.

Cristo, uma estátua? Uma presença,
do alto, não dos astros,
mas do Corcovado, bem mais perto
da humana contingência,
preside ao viver geral, sem muito esforço,
pois é lei carioca
(ou destino carioca, tanto faz)
misturar tristeza, amor e som,
trabalho, piada, loteria
na mesma concha do momento
que é preciso lamber até a última
gota de mel e nervos, plenamente.
A sensualidade esvoaçante
em caminhos de sombra e ao dia claro
de colinas e angras,
no ar tropical infunde a essência
de redondas volúpias repartidas.
Em torno de mulher
o sistema de gesto e de vozes
vai-se tecendo. E vai-se definindo
a alma do Rio: vê mulher em tudo.
Na curva dos jardins, no talhe esbelto
do coqueiro, na torre circular,
no perfil do morto e no fluir da água,
mulher mulher mulher mulher mulher.

III
Cada cidade tem sua linguagem
nas dobras da linguagem transparente.
Pula
do cofre da gíria uma riqueza,
do Rio apenas, de mais nenhum Brasil.
Diamantes-minuto, palavras
cintilam por toda parte, num relâmpago,
e se apagam. Morre na rua a ondulação
do signo irônico.
Já outros vêm saltando em profusão.
Este Rio...
Este fingir que nada é sério, nada, nada,
e no fundo guardar o religioso
terror, sacro fervor
que vai de Ogum e Iemanjá ao Menino Jesus de Praga,
e no altar barroco ou no terreiro
consagra a mesma vela acesa,
a mesma rosa branca, a mesma palma
à Divindade longe.
Este Rio peralta!
Rio dengoso, erótico, fraterno,
aberto ao mundo, laranja
de cinqüenta sabores diferentes
(alguns amargos, por que não?),
laranja toda em chama, sumarenta
de amor.
Repara, repara nas nuvens; vão desatando
bandeiras de púrpura e violeta
sobre os montes e o mar.
Anoitece no Rio. A noite é luz sonhando.


 

 

 

Ciranda "Uma Cena Carioca"

Poetas Participantes

 

 
  1- Marise Ribeiro
  2- Eliane F.C. Lima
  3- Maria Nilceia
  4- Tonho França
  5- Raquel Caminha Matos
  6- Elizabeth Assad
  7- Silvana Cervantes
  8- Tere Penhabe
  9- Renate Emanuele
10- Sávio Assad
11- Eda Carneiro da Rocha
12-Margaret Pelicano
13- Maria Granzoto da Silva
14- Mário Osny Rosa
15- Antonio Cícero da Silva
16- Bernardino Matos
17- Branca Tirollo
18- Sueli do Espirito Santo
19- Luiz Poeta
20- Deth Haak
21- Lúcio Reis
22- Gildina Roriz (Magy)
23- Jorge Linhaça
24- Schyrlei Pinheiro
25- Nancy Cobo
26- Rosenna
27- Denise Figueiredo
28- Iracema Zanetti

 

 

1- Marise Ribeiro

No banquinho em que gostavas de te sentar,
Para acompanhar o vai e vem das pessoas,
Por certo começavas sutilmente a pensar
Sobre a que tema cantarias loas.

Poeta, se tivesses feito parte dessa cena,
Quantas nuances dela depreenderias...
Certamente do coitado não terias pena,
Pois teus olhos só veriam poesia.

Ao lado dele, perceberias decerto a solidão
Gritando por um amigo que a ouvisse...
Ou até, cansada de ser mais uma na multidão,
Implorando que alguém a visse...

Talvez entendesses que surge dali a miséria do ser
Que gasta na bebida pra esquecer
O pouco que ele ganha todos os dias
Com a venda de suas latinhas vazias...

Poeta, quem sabe o teu olhar fosse até diferente
E resolvesses usar a veia cômica...
Então, correrias à tua casa apressadamente
E escreverias para o jornal uma divertida crônica.


Ah! Poeta,
não foi em vão quando, para morar, escolheste o Rio
Lugar cheio de encanto e desvario
Hoje eu sei que muito da tua obra deste em troca
Do que esta cidade te ofereceu em cena carioca.

És estátua, observando a vida em Copacabana
Ao teu lado cada um é qualquer um, ninguém é bacana
Nem vendedor de latinha nem alguém da alta sociedade
És poesia no Rio, Poeta Carlos Drummond de Andrade!

 


2- Eliane Ferreira de Cerqueira Lima

Um pássaro é seu canto e seu vôo.
O mar é seu som e sua cor.
A chuva é o molhado na calçada,
o pingo correndo no guarda-chuva,
o sono sobre o travesseiro.
Um homem é suas palavras,
seu sofrimento, sua esperança.
Um homem também é sua fraternidade,
sua benevolência.

E um homem é poesia,
se suas palavras carregam
sofrimento e esperança,
fraternidade e benevolência,
umidade e sono,
som e cor,
canto e vôo.
Mesmo que não tenha casa,
ainda que seja de bronze.

 


3- Maria Nilceia

Banco, meu leito,
areia e mar, meu lar...
Conto-lhe, meu velho amigo,
histórias que fizeram vida em mim.
Como vê,
quase não preciso de nada.
A beleza do mundo me basta.
Meus pés me conduzem,
minhas mãos me alimentam,
tenho você que me ouve,
tenho a melodia na alma
e a descontração no corpo.
O que me falta?
Não tenho casa,
mas tenho o céu,
não tenho cobertor,
mas tenho o sol.
Não tenho filhos,
mas tenho um Pai.
Os versos eu os tenho na alma,
sem rimas, sem requintes,
mas recheados de prazer
que muitos ainda não têm!

 


4- Tonho França

“Havia um homem sentado no banco
sentado no banco havia um homem,
falando ao poeta:
“Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.”
E, tu poeta, com a sabedoria das montanhas de Itabira,
Ouve com a alma em poesia,
E o coração em saudade,
O que fizeram com o mundo?
Tão vasto, que agora quisera chamar-se Raimundo,
E ser solução...
Oferecer ao menos o café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom...
E teus olhos choram o anjo torto ao teu lado,
Nunca fostes tão gauche na vida,
Tudo é como uma fotografia na parede
Mas como dói...”

 


5- Raquel Caminha Matos
(Lindinha)

Bom dia amigo companheiro!
Não é de agora que estou a te observar
sentado nesse banquinho, apesar do denso nevoeiro,
apreciando essa multidão inquieta a vagar.

E, então, me ponho a pensar com meus botões,
o que será que ele faz na vida? Será um aposentado,
que desfruta do repouso das lutas e inquietações,
a relembrar seus belos momentos do passado?


Hoje me enchi de coragem, para dele me aproximar,
atravessei a avenida como quem não queria nada,
sentei-me ao seu lado e comecei a prosear.
Logo notei seu porte de pessoa culta e muita educada.

Eu com o meu desembaraço comecei a falar de minha vida dura.
Moço, por favor, não repare no meu bafo,
 eu bebo para esquecer.
Não tive a sorte de estudar, a vida não me deu essa partitura,
perdido, sem rumo, encontrei, na bebida,
uma maneira de me aquecer.

Meu bom amigo que me ouve, apesar de tudo,
não me desliguei da vida,
não saí de minha estrada, não deixei de sonhar,
não perdi a esperança,
Eu já quis ser poeta moço,
aqui dentro tem muita história escondida,
O meu desejo era ter a poesia de
Carlos Drummond de Andrade como herança.

 


6- Elizabeth Assad

Maravilha estar aqui ao lado do
poeta que em seus braços embalou
o carioca, foi moleque e menino
nas grandes avenidas do Rio.

Ah!... Quanto orgulho de ver
cantando em verso e prosa e com
toda a maestria, essa beleza
de natureza.

Sabe, você é ô cara, que soube
olhar com leveza e descobriu com
sutileza, que ser carioca é
"mermo" tudo de bom.

Ser carioca é sorrir todo dia,
fazer de tudo uma alegria e
se bronzear até o final do dia.

E hoje com toda a dureza, eu
digo com certeza, aqui
mora a mãe natureza.

E você poeta com sua
sabedoria e graça, traçando as
letras por onde passa
transcreve com encanto essa
Cidade Maravilhosa.

 


7- Silvana Cervantes

Sabia que estaria aqui sentado
e mesmo te achando um cara calado,
é você que sempre segura meus babados...
Ando meio encucado, acabrunhado
olhando pro lado assustado!
Já notou como o mundo mudou?
As pessoas estão sisudas,
caras amarradas, carrancudas...
Já não se cumprimentam nas ruas,
entram nos ônibus caladas meio que mudas.
Até a boemia virou nostalgia,
nome de cerveja...
Que seja!
Beber ainda é bom,
dá pra vida um certo tom
e se o camarada não tiver nenhum dom,
ai sim, é beber pra tentar sobreviver
Eu sei, você não molha o bico...
Mas com certeza pede pinico...
Fala sério meu irmão!
Eu sei que estou com a razão...
Poeta é bicho bom,
ainda mais se for Drummond!

 


8- Tere Penhabe

Ah Poeta, foi tanto o que disseste
a respeito do João, da Maria
que sequer os conhecia...
Agora sentam-se ao teu lado
para ter aquela conversinha.

Quem sabe te perguntem
a receita do amor, que tão bem propagaste
quem sabe apenas desejem se ver
ao teu lado, e ter o louvor
de ser por amigos distantes, invejado!

Não sei, sei que também por aí passei
e foi um prazer apertar tua mão
mesmo fria, sem vida, foi sentida
através da lembrança, da tua inspiração
e escrevi algum dia, o poema que eu queria:

"De caso com Drummond"...
Na verdade, só uma cena carioca
retrato da magia de Copacabana
entre saudades de amores que vivi
no século passado, quando estive aqui...

Santos, 26.07.2006
www.amoremversoeprosa.com
 

 

9- Renate Emanuele

Você está ouvindo? Escute a canção
É poesia, meu universo de solidão
Entre as quimeras esconde dores
Fala de um passado, meus amores

Onde o tempo se tornou carrasco
A dor no corpo já se fez o casco
Misturo às lágrimas, aguardente
Dissipando as torturas da mente

E na poesia busco rimar alegria
Mas a lembrança perturba o dia
À noite a saudade aviva na canção
Sem alegria, a rima será solidão

São Paulo - Brasil
 

 

10- Sávio Assad

Você pensativo, sob esse sol e eu
Aqui contando meus problemas,
Querendo ouvir seu retorno mudo.

Estátua cruel, me olhas e não me vê.
Não sou louco, nem poeta, sou um sonhador,
Contando meus sonhos mais profundos.

Revelando minhas propostas amorosas, e você
Me olha, calado e sem interesse. Quero ouvir
Dos seus lábios o frio testemunho.

 


11- Eda Carneiro da Rocha

Ah! Drummond, o que não sentirias
em ver que eu bebo?
Não um álcool destilado,
seja lá qual for...

Bebo tuas palavras de poeta,
teus desejos de que o mundo fosse melhor...
De que não houvesse guerras,
fome, doença, inveja e tudo mais...

Bebo, acompanhada da solidão que me invade!
Meu louco coração,
que ama, apesar de tudo!
Confessa a duras provas,
a Esperança que ainda vive em mim!

Se aqui estivesses, beberíamos juntos!
Eu ergueria para ti,
minha bandeira tremulando:
"Amor"
e me chamarias de sentimental.
Eu o sou, nós o somos!

Assim, Caro poeta, Drummond,
vamos beber, na nossa taça
esse hino Esperança,
pedindo sempre a Deus
que nos traga de novo
a "Bonança"!

 


12- Margaret Pelicano

Paciente Drummond ouve a reclamação:
- passam por mim é não me vêem!
- Se peço um pedaço de pão,
lá já vem o sermão:
- Cachaceiro! Vá trabalhar vagabundo!
- E ainda se julga no direito de me cons... cons..
Constranger, responde o poeta!
- Isso, isso, diz o cidadão!
Cidadão dessa grande nação
que não encaminha seus pobres filhos para albergues,
que os abandona, bem ali no calçadão,
aos desabafos e bafos
nada mais, nada menos
do que com Drummond!

Brasília, 28/07/2006

 


13- Maria Granzoto da Silva

No meu caminho

Sem destino,
Sem meio ou fim,
Encontrei você parado.
Na verdade, sentado,
Num banco de cimento.
Eu,
Sem discernimento,
Não entendia
O que você fazia ali
E por que não olhava
Pra mim.

Meio desconsertado,
Sentei-me ao seu lado
E fui falando sobre
O meu pobre passado.
Assim que nasci, a tudo e a todos
Perdi.
Na rua cresci.
Foi a única escola.
Vê a minha sacola?
Ela faz parte da minha história!
Ali, eu guardo um Cristo,
Não um anjo torto!
É por Ele que insisto
Na busca de um porto,
Talvez uma porta...
Vê os meus cabelos?
Sorte sua
Em não tê-los!
(quem não tem, não corta...)
Vê?
Copacabana está dizendo que sim,
Mas a vida, meu irmão,
Pra mim,
Sempre disse:
-Não!

 


14- Mário Osny Rosa

Quando olho essa cena
De calma e expectativa.
Daquele tempo passado
Olhando o belo Corcovado.

Numa conversa amigável
Discutindo amenidades.
Numa antiga sociedade
Sem nenhuma maldade.

Essa beleza a olhar
Essa cena agora repetir.
Há mesmo que convir
Com o perigo a rondar.

Esse é um sentimento
Como também um tormento.
Os bancos ficam vazios
Olhando passar os navios.

São José/SC, 29 de julho de 2.006.
 

 

15- Antonio Cícero da Silva

No velho e amigo banco
o poeta sentado se inspira
ao ver o mar com grande brilho
e ondas altas espumadas.

Examina os transeuntes
a passarem para lá e para cá
aparentando estarem contentes
e com um até passa a conversar.

Pisando a branca areia
com fofura fenomenal
por onde passou a grande baleia.

Também olha e examina o céu
bem longe ao infinito
por onde passa um suspenso véu.

Carapicuiba/SP, 29 de julho de 2006
http://www.celeirodeescritores.org/cicero.htm

 


16- Bernardino Matos

Não pude conter minha emoção, diante de você,
sentado nesse banco, pensativo, distante, silencioso,
respeitei a sua mudez, esse seu jeito simples de ser,
a poesia fala por si, esse é seu dom mais precioso.

Olhando você imóvel, rígido, eu cheguei à conclusão,
que o poeta jamais perde o contato com a realidade,
basta apenas sua imagem, para que brote a emoção,
seus poemas se instalam na alma, com toda vitalidade.

Seu semblante penetrante, me fez lembrar que na vida,
“há sempre uma pedra no caminho”, um confronto,
um entrave, um desconforto, que sempre marca a lida,
eu escuto o seu silêncio, seu saber jamais afronto.

Aqui,sentados, estamos dialogando, eu ouço sua voz,
declamando seus poemas, eu tenho até a impressão,
que seu semblante se altera, seu pensamento veloz,
me aguça, me atinge, embaça meu campo de visão.

E, então, o cenário muda, a estátua, aqui, sou eu,
você está mais vivo do que nunca, está eternizado,
em cada rima, em cada estrofe, você jamais morreu,
Drummond, gostaria de falar, mas estou petrificado.

Fortaleza, 29 de julho de 2006.

 


17- Branca Tirollo

Eis que pergunto ao vivo
Nesta cena que inventei
Contraceno com o vento
O amor que de ti copiei

Falo do amor incondicional
Daquele que mesmo mal
Num verso triste, eu criei

Pode ser que não resista
Quando passar esta fita
Numa melancólica conexão

Mas me responda com alma
Que amor maior acalma
Este mar bravo sem razão


Vê-se no mar minha alma
Voando triste e perdida
Como uma velha canção

Despida eu faço prece
Ignoram-me com astúcia
Sem perceber quem eu sou

Roubam-me traços e pingos
E os direitos dos meus versos
Sei lá eu quem já levou

Por favor! Responda agora
Minha alma chora lá fora
Não acho que alguém roubou


Abraço com respeito e glória
Tuas palavras, em memória.
Há quem de ti comentou

Tenho a mesa um dicionário
Na parede um calendário
Marcado o que mais amou

E quando eu falo ser meu
Palavras trocadas simplesmente
Eis que te vejo a minha frente

De todo amor que criei
Algo de sua história copiou
E não foi em vão, sinceramente.


Responda-me, por favor,
Onde anda tua alma bela
Que reflete tanto amor?

Encena neste tablado e acena
Sua estrela viva e serena
Amor maior afoga a dor

Neste mar bravo sem razão
Qual a razão? Meu senhor!
O amor maior acalma a solidão?


Aplausos! Tudo é platéia
E tem a sua extensão
Acena e em cena, no palco
A contra cena destas mãos

Que cortam pingos e letras
Olhando em todo dicionário
Para mudar uma história

E com três ou mais palavras
Galanteia e faz grande festa
Paga os direitos da letra
Pronto! Nasce, mais um poeta


Sou insana! Mas repito sem medo
Se precisar hoje eu grito e bebo
Nesta cena gloriosa e bruta

Neste mar bravo que levanta
Nem toda água me espanta
O amor maior vencerá a luta

Cada quinhão tem seu dono
Cada dono um pergaminho
Lavrado de amor e perdão

Com sua licença me retiro
Somente a palavra permanece
Testemunhando a cena, adentro


Responda-me que amor maior
Acalma este mar sangrento
Mas me responda com alma

O que dirias em cem anos
Sobre a chacina impiedosa
Que ocorreu na Candelária

Aquilo também é quinhão?
Que amor maior acalma
Este mar bravo sem razão?

Entendo! Drummond. Entendo.
A platéia também foi embora
Só nos restam as duas mãos.

Que amor maior acalma
Este mar bravo sem razão?


 

18- Sueli do Espírito Santo

Vês poeta, o cenário é o mesmo
todo esse povo andando a esmo
nem preciso dizer de onde venho
nem das mágoas que eu tenho

Dos espinhos que me machucaram
e bem lá no profundo me tocaram
pois que já não sentes mais o frio
deste mundo louco tão sombrio

Nem os meus sonhos te contarei
e nenhum segredo te revelarei
pois já te livraste da tempestade
como também da dor da saudade

Saudade da minha terra, minha gente
longe, tão sofrida, faminta e carente
pois este já é um antigo sofrimento
lido em teus versos todo sentimento

Pois é poeta, você se foi, o tempo passou
o mundo se modernizou mas nada mudou
você aí, sentado, tão calado, mudo e surdo
e o nosso mundo continua um absurdo

 


19- Luiz Poeta (sbacem-rj) – Luiz Gilberto de Barros
Às 16 h e 16 min do dia 31 de julho de 2206 de uma tarde fria do Rio de janeiro,
especialmente para a Ciranda " Uma Cena Carioca ", criada por Marise Ribeiro - Cenário dos Sentimentos .



Tu bebes tua dor num botequim

Procuras ser alguém, tropegamente;
E de repente estás dentro de mim;
Eu sinto o teu amor e ele me sente.

Tu não me vês, sou interlocutor
Da tua solidão desesperada
E habito a embriaguez do teu amor
Perdido na poeira da calçada...


Precisas de alguém que apenas ouça
A história que tu tens para contar;
Segredos são como jarros de louça
Que o tempo é capaz de espatifar...


Tu falas, mas ninguém sequer te escuta,
O amor se perde em tua voz cansada;
Teu grito só percorre a mesma gruta,
Seu eco é tua dor amargurada.

Então, já que ninguém te compreende,
Conversas com a estátua de Drummond
Ela não fala, mas sempre te entende
E ouve tua voz em qualquer tom.

Perscrutas o silêncio do poeta,
Procuras na mudez alguma fala,
Revelas tua dor mais inquieta...
A dor de um sonhador nunca se cala.

Do bronze, uma voz, então, pausada
Percorre os ermos do teu coração
E diz: - Teu o sonho nunca vale nada,
Quando ele dorme dentro da razão.

 


20- Deth Haak

... Encanta cena que encena, assentados no banco em que arestas...
Bem vindo, companheiro diversos direi a você
Eu andei embriagado, não por pinga, você crê?
Foi à beleza do seu Rio de Janeiro, fez do álcool me esquecer
Não me apiedei de mendigos, tão pouco das putas esquinas.
E nessas pastilhas serenas, muitas vezes confundi a escrita
No passar bela morena, perdi do verso a rima...

Carlos Drummond de Andrade, a seu inteiro dispor, sou
Ave do Rio arribado, por muito versar nessa estrada
E aqui sigo meu destino, poetando nas alvoradas.
Gente que vem e que passa, que senta neste banquinho
Daqui, do Céu iluminado, tem brisa a contento, não tem
Sol nem água de março, que faça inundar esse RIO...

De tantas curvas perigosas, como a mulher desatina
E fere também como a rosa, como o tráfico na Rocinha!
RIO de tantas flores, de tantas balas perdidas, do Leme
De Naus e veleiros, das velas da Glória Marina.
Mar cristalizando ancoras, dos meninos esquálidos
Das drogas, dos gordos lábios rachados de sol...

Rio de noites enluaradas, das belas árvores ornando
As ilhas, da deslumbrante Carioca, que ginga ao passar
A menina... Levando a bolsa e vida, na cor de cada um
Que passa com alguma poesia, na lição do amigo ...
Que bebe por que tem fome, por não lhe sorri o destino
Bebe... Diz ser um Zé ninguém, que mulher abandonou...

E agora José, José para onde? Já não tem bonde, tens
Que segui andando, Pela Lagoa Rodrigues de Freitas
Olhando o Cristo Redentor, peça com fé e coragem
Que ele alivia dor, tire-lhe Pedra do caminho, que
Sigo sentado aqui, pelo povo eternizado, sou poeta!
Digo todo Zé que aqui se senta, dizendo que tanto sinto...

E agora José ,que já me apresentei, ouvi seu lamento
Em poesia direi. Quão bela cidade! e que Tu Zé,
faz parte dessa bela paisagem! Da Copacabana
Do calçadão iluminado, dos bares e prédios enormes
Da gente que vive apertado, em cubículos quarto e sala
Nas marquises e calçadas, nas cobertas da areia,
ou nos banco das praças, Carlos Drummond, psicólogo e poeta
encenas hoje, encantado as massas quem vem, quem passa...


“A Poetisa dos Ventos”
Deth Haak
31/7/2006

 


21- Lúcio Reis

Sabe caro Drummond, não sei se compreenderás
Pois apesar de aqui ser a Maravilhosa
Querem isto transformar em paraíso do satanás
É! É um contraditório que provoca uma ira raivosa
Sabes por que isto venho te dizer?
Vejo-te aqui aos dias os passantes a ver
Sei que estás lá num local maravilhoso
Por isso poderás entender quanto isso está ficando odioso
As pessoas não querem, como tu, falar de sensibilidades
Para as crianças as balas não doces que não contêm glicose
Mas sim de chumbo e revestidas de muito ódio
E quando descem não sabem se sobem ao prédio
Sabe caro amigo, elas, as pessoas más, não sabem nada de caridades
E num piscar de olhos fuzilam qualquer um sem nenhuma piedade
Estás de costas para o mar, para as pessoas olhar

Mas lá no sal das águas tem tanta porcaria que não dá para banhar
E, se prestares atenção, os passantes tem medo de encarar
Qualquer um de nós, pois pressentem que neles podemos atirar
E assim a beleza da vida e do viver lhes arrancar
E tudo ficou um eterno e concreto desconfiar
Mas, tu sabes caro poeta
Que isto aqui ainda tem espaço de paraíso
Pois por tua delicada e poética caneta
Construíste em alguns corações o leal sorriso
E mesmo a despeito de muita guerra, morte e dor
Ainda vamos ver o Rio, o carioca e quem nos visitar
Em franca confraternização e dois dedos para o alto e a Deus olhar
Gritando a fraterna frase de paz e muito amor.

Lúcio Reis
01/08/06

 


22- Gildina Roriz (Magy)

Uma conversa à beira-mar
é sempre tranqüila e gostosa ...
Talvez até não o seja,
para quem está envolvido na prosa,
mas assim sempre vai pensar
quem está a observar...

Analisando a cena evidenciada na foto
algo de incomum eu noto.
Um encontro inusitado do meu poeta maior
com um simples andarilho.

No olhar dos dois vislumbro o brilho,
que lhes vem do coração...
O poeta mostra que é bom ouvinte,
e o andarilho é todo alegria
por ser digno de atenção.

Não tenho a menor idéia
sobre o que conversaram...
Mas ao se despedirem, algo me diz,
que tanto um como o outro era mais feliz,
pelos momentos de vida
que juntos compartilharam...

 


23- Jorge Linhaça

Ah poeta companheiro, ouça meu desabafo
Que à beira deste mar sereno agora eu te faço
A poesia imorredoura, nossa forma de falar
Anda crescendo como pão, no calor a levedar

Temos bons e maus poetas, e isso causa aflição
Temos roubos de autorias, roubam nossa emoção
Mutilam versos à cinzeladas, falseiam a autoria
A coisa anda complicada, matam as fantasias

Ah poeta, aqui, sentindo o cheiro deste lindo mar
Ouvindo o ir e vir das ondas transmorfas a marulhar
Peço-te o conselho do mestre ao pobre aprendiz

Como manter a vontade insana de ainda poetar
De minhas emoções na tela assim derramar
E nos versos ser ainda, inocentemente feliz?

 


24- Schyrlei Pinheiro

É quase inacreditável,
ver aquela pedra, que você pôs no seu caminho,
ser esculpida, imortalizando a sua imagem
no caminho do mar.
Agora, o presente pode sentar ao seu lado
e sentir a poesia cantar.
Só a justiça, por aqui, continua surda e muda,
calando a cegueira, com vergonha da gente,
que suspira, a sonhar,
ouvindo o mar murmurar "eu te amo".
Você poeta, aqui, sentado
eternamente neste banco,
ilumina e revive a história.
Ao seu lado, também posso sentar-me,
e ver as sereias,
inspirando a vida a passar.
Ah! Poeta,
Não és uma estátua,
mas sim, um monumento popular,
que faz, em palavras, a nossa poesia brotar,
demonstrando nos versos,
a força e a beleza de um eterno amar.

 


25- Nancy Cobo

A imagem do poeta em frente à Praia
Trás lembranças de um homem
Com alma e coração transparentes
Quem ainda não parou, olhou, ou até sentou,
Do seu lado para registrar aquele momento
Como também muitos se sentam até para conversar
São pessoas que vivem acompanhadas da solidão

Mas têm aqueles que na vida mal conseguem ter um teto
E quando conseguem algum dinheiro
Num trabalho, ou até num extra,
Bebem para esquecer a vida dura e difícil,
Para dormir e não sentir fome, sede, saudade...

Esse homem que "conversa", também é um homem só,
E nesse monólogo tenta entender porque a vida
Foi tão difícil pra ele, lhe tirando o direito que
Todo o cidadão tem, que é ter Dignidade.

 


26- Rosenna

Oi poeta!... permita-me
ao seu lado sentar-me?
vamos conversar...
faz um tempinho que queria
com você falar...
você calado sempre a todos
parece escutar...
mas... eu falo e falo...
e acho que não vê meus pés descalços,
nem observa meu triste olhar...
sabe poeta?...
pelas noites bebo muita cachaça
para não ver nem pensar,
viu que triste é a vida
dos que não têm lar?...
mas isso acontece...
e não se pode remediar.
E agora conte-me poeta...
você que leva tempo aqui sentado...
vendo a vida passar,
você que olha a cidade
desde este bonito lugar,
tão pertinho do mar...
diga-me poeta, eu quero saber
...se é deste lugar...
que a vida se vê com outra cor de cristal?...

Rosenna
Buenos Aires-Argentina

 


27- Denise Figueiredo

De tudo que já vi
Algo tão lindo assim
Confesso não resisti,
O ébrio falava e não tinha fim.

Falar é natural,
Mas o que ocorria não.
Com animais e gente é normal,
Com estátua não.

E o que falava?
Imagino, você não?
Poesias que encantava,
Até o mais durão!...

O poeta atento escutava!
A cena carioca discorria,
Drummond! Era sua a estátua,
E admirada, eu me comovia!...

Como pode com a estátua,
Um ser dialogar?
Como pode com a estátua,
Um ser desabafar?

O peso do que sentia,
De não ter com quem falar,
A clássica rebeldia,
Do carioca sem par.


Foi o que vi na cena,
Positiva meu irmão.
Carioca e amena,
E que muito valeu a pena.


Rio de Janeiro, 10/08/2006.
http://spaces.msn.com/gotasdepoesia/
http://denisefigueiredo.blogs.sapo.pt/
 

 

28- Iracema Zanetti


Ah quem me dera ter visto Drummond
Assentado em seu lugar costumeiro
Ao se inspirar com o cotidiano corriqueiro
Dos freqüentadores das praias do Rio de Janeiro.

Ah quem me dera ter tido o privilégio
De lhe pedir um autógrafo
E iniciarmos despretensioso...
E fugaz bate-papo ameno!

Em poucos minutos...
Seus risos e sorrisos marotos me contagiariam
Ao ouvir-me declamar qualquer poesia de minha autoria...

Ah quem me dera morar na Cidade Maravilhosa...
Quando ele se fez dono de uma pedra onde meditava...
E senhor de um dos bancos da praia
No qual, homens poderosos, ou simplórios...
Com ele habitualmente conversavam!

Seu olhar matreiro não perdia um só trejeito
Do vaivém de jovens, mulheres...
Homens maduros, idosos e crianças...

Bastava percorrer o olhar e em rápida análise,
Como um relâmpago seu pensamento,
Já havia elaborado e registrado um poema
Um conto ou uma história hilária em sua mente prodigiosa!

Escolhia os candidatos mais excêntricos
Ou os de olhos adocicados.
Não passava por ele pessoa alguma
Que não parasse à sua frente e se abrisse em sorrisos...
Ao lhe desejar bom dia, e com ele dar uma prosa.

Drummond mineiro de nascimento talvez até de coração...
Deixou sua cidade em busca de um futuro promissor.
E com certeza encantar o mundo com sua alma amorosa de poeta...

Para isso havia que vivenciar a beleza
Da natureza ímpar do Rio de Janeiro.
Conhecer alegrias e tristezas do povo!
Amar adultos e jovens, idosos e crianças...

Entender-lhes o modo peculiar...
E escrever à altura da capacidade
De cada leitor sem esquecer dos não privilegiados...

Drummond deixou-nos livros editados...
Com mostras de sua cultura...
Seriedade beleza e singela comicidade!
Escreveu muito e agradou sem restrição a seus leitores...
E com certeza... A si próprio...!

E eu, cheia de emoção e sedenta de Poesia,
Sento-me junto a ele, do lado esquerdo de seu coração!
Sou esse que, na imagem, gesticula e balbucia...
Bebo do Poeta do banco e da cidade... Apenas na imaginação!

 



(a revisão dos textos é da responsabilidade de cada autor)

 
 
 
 
 
 
 

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